quarta-feira, abril 23, 2008

RECORDAÇÕES

quarta-feira, abril 23, 2008

Hoje não sei porquê lembrei-me da primeira vez que fui para a creche. Aliás, até sei, é que fui-me inscrever para a escola e parece que nos põem a fazer uma biografia nossa. Então dei uma revisãozinha mental desde que nasci e parei precisamente nesta altura. Tinha três anos quando a minha mãe me depositou lá. Choradeira toda a manhã até me habituar ao lugar e às pessoas. Lembro-me bem dos invernos, de chover muito e ver a chuva a bater nos vidros das janelas. De haver uma sala cor de rosa com estantes cheias de livros a forrar as paredes e uns sofás de criança a imitar os dos adultos, cadeiras pequenas em redor de mesas do mesmo tamanho pintadas de branco. Era uma sala que nos fazia lembrar as histórias de fadas, de meninas ricas (como a cor da sala tivesse alguma coisa a ver, santa ingenuidade) e que nos dava uma sensação de bem estar. É isso que me lembro, de fazer tudo para poder lá estar, o que era muito raro. Só iam para lá as meninas que a responsável por aquela sala chamava. E eu sempre na esperança de lá poder entrar. Poucas vezes tive esse privilégio.
Lembro-me também da alegria que era quando me iam buscar ao fim do dia, aliás lembro-me bem que tinham de nos ir buscar a partir das cinco horas da tarde, que felicidade quando víamos alguém de família.
O tempo foi passando e eu fui crescendo. Enquanto não entrei na escola primária passava o tempo ora na brincadeira cá fora, quando o tempo estava bom, ora, no inverno, na sala grande a ouvir histórias que nos contavam para nos entreterem. Sim, não era fácil entreter para aí umas 80 ou mais crianças sem fazer nada. Depois, mais uma desilusão, apareceu lá uma professora de dança para pôr meninas a fazerem ballet. Fomos postas em fila para ver quem tinha os dedos dos pés indicados para tal, mas fui rejeitada. Que triste que me senti.
Chegou a altura da escola primária. Não foi preciso mudar de sítio porque lá havia duas professoras a ensinar, uma de manhã e outra de tarde. Eu apanhei a de manhã. A professora, senhora de mais de 60 anos, chamava-se Maria das Dores. Porque será que nunca nos esquecemos do nome da nossa primeira professora? E esta era de gancho ou de pelo na venta, como se costuma dizer. Bastava ela abrir os olhos que não sabíamos onde nos devíamos esconder, mas como professora era realmente muito boa. Há coisas que aprendi com ela que nunca mais me vou esquecer. Uma vez ela mandou-me fazer um problema e eu errei a fazer as contas, não sei porquê pois até era muito boa a contas, mas errei e ela chamou-me para o pé dela e começou a perguntar-me como é que aquilo se fazia, mas o medo que tinha dela era tanto que não conseguia pensar, e de cada vez que ela perguntava e eu não respondia ela dava-me uma reguada na mão. Resultado cheguei a casa com a mão inchada. A minha mãe é que não gostou nada da graça e foi falar com a patroa que fez queixa dela ao Ministério. Nunca mais tocou em mim.


E como este texto está muito grande continuo amanhã.

3 comentários:

Rubi disse...

impressionante lembrar coisas tao remotas. Eu nao me lembro do primeiro dia na creche. Lembro-me da creche,e do nome da professora, mas do primeiro dia nao. Beijinhos

pinky disse...

como tu te~lembras disso tudo! impressionante, eu não me lembro de nadinha só de episódios soltos..

Evelyne Furtado disse...

Que memória, hem , Ana? E as reguadas nas mãos de uma criança? Que horror! Bom que vc aprendeu.
Beijos